Representatividade importa!

30.4.19
Foto retirada da página oficial do FestPoa Literária, no Facebook

Ontem, na abertura da 12ª edição do FestiPoa Literária (continua rolando até o dia 06/05), eu tive o prazer de assistir a uma conversa entre duas filósofas e escritoras brasileiras incríveis: Sueli Carneiro e Djamila Ribeiro. A conversa foi mediada pela jornalista, editora e poeta Fernanda Bastos. Eu não sei bem se conseguirei me expressar, ao menos como gostaria, sobre tudo o que eu ouvi lá. Assisti ao bate-papo em companhia de uma grande amiga, Suellen Rubira. A Su tem muito mais fundamentação do que eu para falar sobre tudo o que aconteceu ontem. E espero, sinceramente, que ela nos dê o prazer de uma leitura de um texto seu sobre tudo o que assistimos (cobrem aí, Concha Editora, que eu cobro daqui). 
Eu não tenho o conhecimento necessário (ainda) para abordar de maneira teórico-política o tema. Então, vou me ater em apresentar minhas impressões, digamos mais sentimentais e subjetivas. Pois bem, Sueli e Djamila - ambas filósofas, escritoras, brasileiras, mulheres, negras - foram as responsáveis por meu rosto dolorido hoje. O tapa na cara foi tão forte que tenho, ainda, minha face avermelhada. Já de início, a fala da Sueli foi um verdadeiro soco no estômago. Ao ler o poema da Fernanda Bastos (não tenho acesso a ele para postar aqui e nem solicitei a autora, mas, se alguém tiver e quiser compartilhar, com autorização dela, agradeço, mas só ele, pois vamos comprar o livro, né?), não pude conter as lágrimas. O problema é que elas não foram de emoção, mas de vergonha. 
O poema é lindo, mesmo falando de algo triste. Fala a verdade. Não se trata de ficção. Não é devaneio. Não choca por desenhar uma realidade distópica. É real. Repito: não é ficção. Entre a leitura do poema da Fernanda e as falas de Djamila e Sueli, o aprendizado foi intenso nessa noite de segunda-feira, mas muito ainda ficou por aprender. E gente não falta pra ensinar. Salão de Atos da UFRGS lotado (não tenho o número exato, mas eram mais de mil e duzentas pessoas), mais uma sala com transmissão ao vivo, igualmente com todos os espaços ocupados, e centenas de pessoas que não conseguiram entrar pelo motivo de lotação máxima. Só por isso, pois a vontade era encher cada espaço vazio com mais alguém. Quanto mais pessoas ouvindo aquelas mulheres, melhor! Todos e todas estavam lá para ouvi-las. Aprender com elas. Havia respeito ali. Representatividade importa e foi lindo. 
Eu não faço parte do bonde podre dos preconceituosos. Não sou homofóbica, não sou racista, não sou machista e nada dessas palhaçadas que, para mim, não têm justificativa. Em nenhum âmbito. E quando me deparo com situações dessas, me dói. É como se fosse comigo. Não foram poucas às vezes em que chorei por isso. Eu sinto raiva. Eu não entendo. Eu brigo. E choro. Ainda que não seja conivente com o racismo, também não sou ingênua a ponto de dizer que ele não existe. É bem comum ouvir pessoas que defendem essa falácia. “Racismo no Brasil não existe.”. Por favor, isso é ridículo! E, me desculpem, mas não vou ficar enchendo esse texto de dados sobre o assunto, afinal, é 2019, já disse Djamila, então, “Vai estudar!”, como a filósofa costuma responder para muitos dos comentários que recebe em suas postagens nas redes sociais. E ela está certa. Acesso à informação há tempos não é um problema. Dados e fatos estão disponíveis a um clique de distância. Falta boa vontade. 
Fernanda, Djamila e Sueli: duas gerações de mulheres que representam um legado para o Brasil! Sim, para o país inteiro, pois quem se exclui em reconhecer toda a luta da população negra é contrário a ela. Por experiência própria eu digo que, mesmo eu que estou ao lado delas e de tantos outros nomes que não baixam a cabeça e matam um leão por dia para terem suas vozes ouvidas e reconhecidas, me senti envergonhada. Doeu ouvir tudo aquilo. Praticamente nada do dito foi novidade pra mim, mas, ouvindo delas, pareceu ser. E, de novo, doeu. Minha dor chega por duas vias: primeiro, por ser a branca e privilegiada que faz parte (esteticamente falando) da parcela da população (e os brancos são minoria, infelizmente temos que relembrar isso a todo o momento) responsável pelas atrocidades praticadas ao longo da história - que só não (re)conhece quem não quer -, contra meus irmãos e irmãs negros; segundo, por não fazer parte (ideológica e politicamente falando) dessa mesma parcela da sociedade que ainda pratica ou tolera o racismo. 
Estamos falando de pessoas. Estamos falando de brasileiros e brasileiras. Estamos falando do país de Machado de Assis, Cruz e Souza, Carolina Maria de Jesus, Maria Firmina dos Reis, Conceição Evaristo, Elisa Lucinda, Sueli Carneiro, Djamila Ribeiro, Carol Anchieta, Manoel Soares, Lázaro Ramos, Emicida, Fernanda Bastos, Camila de Moraes... Ufa! Que esses três pontinhos sejam bem considerados, pois esta lista iria muito mais longe. Considerando passado e presente. Para o futuro eles, certamente, se multiplicarão (ainda bem!). São cientistas, filósofxs, poetas, artistas, esportistas e representantes de muitas outras áreas que contribuíram para a construção desse país e de toda a sua história. Homens e mulheres que protagonizaram mudanças, conquistas, lutas! São negros e negras que, muitas vezes, não foram reconhecidos. Nem ao menos conhecidos. E, pior, deram lugar (contra a sua vontade) a nomes que não foram os verdadeiros autores e autoras de seus feitos. Foram erroneamente embranquecidos. Por nós. Sociedade doente que insiste em ignorar suas mazelas. Tão antigas. Tão atuais. Tão dolorosas. Tão ver-go-nho-sas! 
Não tem mais volta. Não irão (iremos) se calar. O grito existe há tempos e, ainda bem, continua e continuará ecoando em nossos ouvidos que, por muito tempo, se fizeram de surdos. Ele está cada vez mais forte. Mais vivo. Mais unido. Essa luta é minha. Essa luta é de todos nós. Não serei conivente, não serei ausente. Marielle (e tantxs outrxs) presente! E eu tô pedindo ajuda. Ajuda pra ajudar. Pra participar. Fazer parte dessa luta! Obrigada Fernanda, Sueli, Djamila. Obrigada aos que vieram antes. Aos que estão. Aos que virão. Obrigada pelos ensinamentos. Obrigada por tudo e por tanto. Porém, em meio a tanto agradecimento, eu quero mesmo é pedir desculpas. Por nossa ignorância. Pelo sofrimento causado. E por todo injustificável e imperdoável. Desculpas não bastam, eu sei. Em nome dos que queiram ou não, ainda assim, eu peço desculpas e reconheço os erros de toda uma história. 
Para finalizar, humildemente pergunto: qual o MEU lugar de fala nessa luta? Porque eu quero (e vou!) fazer parte dela!
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Compremos já!

Dessa Cor - Fernanda Bastos
Feminismos Plurais (vários) - Selo Sueli Carneiro

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