Aconteceu comigo

25.4.19


Daqui a 2 dias vai fazer 1 mês que precisei passar pelo AMIU (Aspiração Manual Intra-Uterina). Para quem não está familiarizado, se trata de um procedimento médico de esvaziamento uterino, indicado para o tratamento do aborto incompleto e para a biópsia endometrial. Eu estava grávida até então. No dia 23 de março, fui realizar uma ecografia transvaginal para ouvir os batimentos cardíacos do meu bebê e verificar se estava tudo bem. Eu já tinha feito esse exame no dia 8 do mesmo mês, mas, devido ao pouco tempo de gestação, não foi possível ouvir os batimentos. Na consulta de rotina que fui, no dia 21, a médica pediu para repetir o exame. Eu repeti. Eu estaria com, mais ou menos, 7-8 semanas no dia 23. Nervosismo no exame (normal) e aquele sentimento de que algo não estava certo. E não estava. Foi detectada uma “gestação interrompida”. O embrião parou de evoluir na quinta semana. Não havia mais vida lá. Não consigo explicar a dor que senti. Só quem já passou por isso é capaz de entender. E - Deus sabe - não desejo isso para absolutamente ninguém! 
Alguns dizem ou podem dizer: “mas era tão pequenininho, só um embrião, tinha o tamanho de um grão de arroz.”. De fato era. Mas, entendam: quando a gente pega o exame e vê o “positivo” ali, exatamente ali, naquele pequeno instante, a gente se sente mãe. Se tu desejavas isso, então, esse sentimento se multiplica infinitas vezes. Daí vem a parte de contar para as pessoas mais queridas, começam os planos, medos (são tantos, o tempo inteiro), a felicidade que não cabe dentro da gente e as incontáveis expectativas que esse universo implica. É pura emoção. É o coração batendo fora do peito. Muitas perguntas. Muitas dúvidas. Será que é menino? Será que é menina? Qual nome escolher? Vai ser mais parecido comigo ou com o pai? Planos, planos, planos. Expectativas, expectativas, expectativas. E MUITO amor. De sobra. Desde o resultado do exame. 
Procedimento feito. Não tem mais gestação. Nem nomes. Nem conjecturas. Nada. Só vazio. Lágrimas. Dor. Choro descontrolado. Daí a gente para. Se acalma. Respira. O choro volta e segue o luto. Luto pela perda de alguém que nem nasceu, mas que já era a pessoa mais importante da tua vida. Os dias vão passando, vai diminuindo a frequência dos choros e a gente até consegue passar umas horas sem pensar no assunto. Depois pensa e consegue não chorar ao pensar. Mas ele tá lá. Vai e vem. Forte. Fraco. Vai e vem. Com choro. Sem choro. Voltamos ao trabalho. Engolimos o choro. Abraços. Carinho. Não conseguimos evitar o choro. Volta a rotina. E a vida continua. 
Resolvi escrever sobre isso, não só para desabafar. Escrevi, pois, ao passar por essa situação vi (mais ainda!) o quanto o assunto aborto (espontâneo ou não) é um tabu. E não é para ser, gente! Nem aborto, nem sexualidade, nem suicídio, nem tantos outros assuntos que DEVEM ser amplamente discutidos. Em saca, na escola, em todos os lugares necessários. Eu passei pelo AMIU, dele resultou uma biópsia em que não foi detectado nenhum “problema” comigo, nem com meu marido. Não é falta de vitamina. Não fiz esforço. Não tomei medicamento que não podia (nem mesmo tomei), não foi porque eu não como carne. Não, não e não. E, mesmo que tivesse feito isso (se alguma de vocês fez!), não seria minha culpa! E quando acontece, muitas vezes é por desconhecimento no assunto ou da própria gravidez. Sabiam que algumas mulheres descobrem que estão grávidas com várias semanas de gestação já? Aliás, vocês sabiam que 1 a cada 4 gestações não continua? Vocês sabiam que 20% das mulheres passam por um aborto espontâneo? Vocês sabiam que muitas mulheres, inclusive, nem sabem que tiveram um aborto? E os motivos são variados e, muitos deles não têm nada a ver com não ter se cuidado. Muitos deles foi Seleção Natural mesmo. Darwin, lembram? E eu, que acredito na Ciência e na Espiritualidade, vejo e sinto o que aconteceu comigo como a união das duas coisas, mas não vou entrar em detalhes de um ou outro aqui. Isso acontece, infelizmente, com muito mais frequência do que imaginamos. Nâo foram poucas as amigas/colegas que vieram me relatar suas experiências ou de mulheres próximas. 
O que quero dizer é: mulheres que passaram (ou não) ou irão passar por isso, famílias, companheirxs, bonde do “teu leite é fraco” e sociedade: NÃO É TUA CULPA, MANA! NÃO É CULPA DA MULHER! ERA DO TAMANHO DE UM GRÃO DE ARROZ, MAS ERA MEU BEBÊ! E, SIM, DÓI MUITO E É MUITO TRISTE MESMO! Não precisa fugir desse luto. Ele, assim como outra perda, pode ser vivido. Deve. Só quando enfrentemos medos e dores é que conseguimos entender certas coisas e superá-las de verdade. E não fugindo delas ou fingindo que elas não existem. E eu não tenho problema em expor meus sentimentos e emoções. Entendo quem os tem, mas tente superar isso, pois pode parecer ruim, mas é totalmente o contrário. Continuando: parem(os) de medir o sofrimento alheio. Parem(os) de opinar sobre o que não sabem(os). Tenha(mos) mais compaixão, compreensão, respeito, conhecimento e interpretação de texto antes de julgar, opinar, medir e discutir sobre a dor dxs outrxs! Então, muito mais do que um desabafo sobre o que eu passei, gostaria convidá-los a começar ou continuar refletindo sobre questões como esta e, se já não o fazem, passem a respeitar as escolhas, vidas, dores de cada um. E, principalmente, TE RESPEITA! E te trata com amor... (tudo isso serve para mim também) 
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P.S.: eu, felizmente, não precisei ouvir pessoas me falando um monte de coisas aleatórias, sem embasamento, egoístas, insensíveis ou algo do tipo. Mas sei que MUITAS mulheres passam por isso, em casos de aborto espontâneo. Ao contrário, minha rede de apoio foi imensamente amorosa e compreensiva (família, amigos, trabalho). Obrigada a todos que me ajudaram (e continuam) a passar por tudo isso da maneira menos dolorida possível. 
P.S.2: estou bem. Podem falar comigo sobre o assunto. Podem contar para mim que estão grávidas. Podem me mostrar bebês e falar sobre esse universo lindo. Continuo amando bebês e grávidas. J E, para quem conhece a Mitcheia, sabe que eu procuro vibrar na energia do amor e tento sempre escolher ver o lado positivo nas piores situações. Eu opto sempre por me reerguer. Eu escolho ser feliz! 
P.S.3 (e o mais importante): se tu já passou/está passando por isso e não tem com quem conversar sobre, saibas que podes contar comigo para isso. 
Acredito que tudo tem um propósito e agradeço por ter sido escolhida por esse espírito, para que ele pudesse cumprir a missão dele aqui neste planeta escola. E ele sempre será lembrado e amado por mim. Meu bebê-anjo, um dia a gente se encontra. Aqui ou em qualquer universo. 
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Dê tempo ao tempo. Respira. Respeita o teu tempo. 
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Com carinho, 
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Mitcheia

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