DANIELA DELIAS e sua encantadora tríade literatura-música-psicologia

18.12.17

A convidada dessa semana, da seção Inspirações, é a escritora e psicóloga Daniela Delias. Eu cheguei até ela, através da "corrente do bem" que solicito nas matérias de entrevista do blog. E, tanto a Andréia Pires quanto a Ju Blasina citaram o nome da Daniela.
Eu não podia ignorar a indicação dessas duas escritoras de peso, né? 
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Não pensei duas vezes! Fui logo em busca dos perfis da Dani. Entrei em contato com ela que, prontamente, se colocou à disposição para nos dar a honra de conhecer um pouco mais dela e, claro, do seu trabalho. 
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Sem mais delongas, convido vocês a mergulharem um pouco mais nesse universo de psicologia e literatura que tornam a escrita de Daniela Delias um exercício interessante de deleite e autoconhecimento.

1)  Fala um pouco sobre ti e do teu trabalho.

Nasci em Pelotas, em 1971. Fui a segunda de três filhas. Meus pais trabalhavam com contabilidade (meu pai ainda hoje atua como contador). Lembro que achava bonito ter pai e mãe contadores porque imaginava que tinha relação com contar histórias. Por muitos anos desejei ser contadora também. Acabei, depois de algumas voltas, estudando Psicologia, e nos últimos 11 anos, por conta da caminhada acadêmica, trabalho como professora do Curso de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande, com as áreas de Psicologia do Desenvolvimento e Psicanálise. Pensando bem, de alguma forma o desejo se cumpriu, porque vivo ouvindo e contando histórias!
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Eu fui uma criança bastante quietinha, introspectiva, mas com um mundo interno sempre em movimento. Aos treze anos escrevi os primeiros rabiscos de poesia. Lembro que esperava ansiosamente pelos sábados à época do ensino médio porque era quando corria para uma livraria chamada Mundial, em Pelotas, e ficava por horas debruçada sobre a estante de poesia. Era um hábito solitário, mas ao mesmo tempo cabia o mundo todo ali. Lia bastante Mario Quintana na minha adolescência. A partir dos dezessete anos comecei a escrever mais intensamente. Os primeiros poemas que guardei são dessa época. Na verdade, os escritos ficaram guardados por vinte anos. Em 2008 comecei a publicar em blog. Quatro anos mais tarde aconteceu o primeiro livro de poesia, o Boneca Russa em Casa de Silêncios, pela Editora Patuá. E em 2015, pela mesma editora, publicamos o Nunca estivemos em Ítaca, também de poesia. 
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Outras publicações foram acontecendo neste período, sobretudo nos últimos anos. O Livro da Tribo é uma delas. E há alguns espaços coletivos muito interessantes em que publico regularmente, como as revistas Zonadapalavra e Escritoras Suicidas. Em 2016 tive alguns poemas incluídos em uma antologia de poesia escrita por mulheres, a Blasfêmeas: mulheres de palavra. O trabalho, em homenagem a Hilda Hilst, reuniu 64 escritoras. Foi muito bacana ter participado! Mas o primeiro cantinho continua sendo o blog, seguido do Facebook.

2) Olhando para trás, lá quando decidiste seguir nessa área/carreira, o que dirias que te motivou? Ou quem? 

Eu não consigo ver com muita clareza a separação entre psicologia e escrita na minha vida. As coisas que tenho olhado desde menina, minhas histórias ou aquelas que me contam, de alguma forma sempre apontaram para o que viria a fazer parte do meu trabalho. Por mais que eu tentasse estabelecer algum marcador temporal, como por exemplo a época do vestibular ou o primeiro poema, é como se psicologia e poesia sempre estivessem ali. Minha mãe sempre foi uma pessoa muito ligada à música. Por isso havia muita música em nossa casa, bem mais que livros. E na música havia a palavra. Meu avô paterno, por outro lado, narrava e fotografava a vida. Ele tinha o olhar, a brincadeira, o movimento. Caminhava apontando para as coisas do mundo. Olha a pitangueira! Olha a formiguinha! É como se eu sempre soubesse que som, imagem, o brincar e a palavra estariam no centro do que eu escolhesse fazer.

3) Se fosses fazer um balanço com os trabalhos que já realizaste, qual tu consideras ser o mais importante deles? Pode ser porque te rendeu maior satisfação pessoal, financeira... enfim! O que te dá o maior orgulho de ter feito. 

Em relação à escrita de poesia, os últimos trabalhos me parecem sempre um pouco mais amadurecidos. Nesse sentido, parece que gosto mais dos últimos poemas que tenho deixado no blog. Mas, em geral, curto bastante o resultado dos dois livros, particularmente do segundo. Eles dizem de momentos diferentes da minha relação com a escrita. Eu tenho também muito carinho por uma série com 30 poemas que publiquei em um blog chamado “Alice e os dias”.
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Sobre o trabalho como professora, pode parecer meio clichê, mas eu tenho uma alegria tão grande pela possibilidade de construir coisas no espaço da sala de aula ou nas supervisões clínicas, que cada dia é um novo frio na barriga, uma surpresa. Isso traz movimento, desejo. Há dias difíceis, é claro, muito difíceis. Ainda assim é imensa a satisfação pessoal. 

4) Aonde tu queres chegar? Já alcançaste o que desejavas com o que fazes?

Minhas expectativas foram mudando ao longo dos anos. Eu desejo, agora, não deixar de me inquietar, de ter perguntas. Belezas são coisas acesas por dentro, diz Jorge Mautner em Lágrimas Negras. Quero, na medida do possível, poder enxergar isso pelo caminho. Se no meio de tudo eu puder crescer como professora e escritora, está bem. 

5) Para quem quiser conhecer e contratar os teus serviços, onde devem te procurar? Quais tuas redes?







6) Como te definirias como artista? Pode ser em uma palavra, uma frase, um parágrafo... Sinta-se livre! 

Tem um verso do Manoel de Barros, no poema O apanhador de desperdícios, que diz: Uso a palavra para compor meus silêncios. Foi a primeira associação que me ocorreu. Queria que a minha voz tivesse um formato de canto, ele diz ao final do poema. 

7) Influências... Tens? Tu te inspiras em alguém? Fale um pouco sobre isso... 

Hilda Hilst talvez seja, para mim, a maior inspiração, ao lado de Alejandra Pizarnick. Mas leio incansavelmente poetas que estão escrevendo agora, neste tempo: Micheliny Verunschk, Nina Rizzi, Ju Blasina, Mariana Botelho, Marceli Andresa Becker, Joana Leuenroth Hime, Roberta Tostes Daniel, Priscila Rôde, Nydia Bonetti, Izabela Orlandi, Líria Porto, Adriane Garcia...que pena não caber aqui esse universo impressionante de escritoras e escritores de agora (isso que falei apenas sobre algumas mulheres). Ah, e a poesia na prosa de Andréia Pires, que me traz um desejo imenso de escrever!

8) Por último, meio que “Corrente do Bem” (risos), queria te pedir para indicar alguém - na mesma área que atuas - que consideres ser um anônimo ilustre e uma inspiração no que faz. 

Vi que as queridas Ju Blasina e Andréia Pires já estiveram por aqui! Eu imagino que a Mar não seja anônima, mas é certo que uma conversa com ela - Marceli Andresa Becker - faria acender belezas, como disse o Jorge Mautner.

Abaixo, apresento dois poemas da Daniela, retirados dos blogs Sombra, silêncio ou espuma e Céu de cartão postal, respectivamente:  

O MUNDO

uma mulher
que é feita de várias
deseja o que desejo:

o doce da palavra
o vidro da palavra
o nada da palavra
tamborilando entre os lábios

das coisas indomináveis
que perdemos um no outro
o mundo, amor

o mundo


(Daniela Delias)


SERPENTES

a mulher de que falo
põe os pés sobre a noite
e supõe que outros olhos
se abrem e velam
entre frestas e átomos
de rotas invisíveis


não diga a ela
que à vida não cabe
o drama que excede
as cartas de amor:

a mulher de que falo
dança agora entre serpentes


(Daniela Delias)

Ainda não tive a oportunidade de ler os livros da Daniela. AINDA! Confesso, porém, que o passeio que fiz nos blogs que ela disponibilizou já me deixaram curiosa para conhecer, mais ainda, de sua escrita. A entrevista que a Dani nos deu a honra em responder mostrou o quanto sua ligação com a psicologia e a literatura estão presentes desde muito cedo em sua vida. Assim como a música.
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Literatura e música são facetas que se entrelaçam em um todo quase indivisível. Formas de arte que nos possibilitam o prazer, a reflexão, o autoconhecimento, a catarse... E todo esse regozijo e olhar para si nos fazem caminhar pelos encantamentos da psicologia... A Dani consegue deixar isso bem claro em suas belas e contundentes palavras...
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Daniela, MUITO OBRIGADA por nos presentear com o teu lirismo... Vida longa para as tuas palavras! Sejam elas escritas, recitadas ou dialogadas em teu ofício de ouvinte e contadora de histórias e estórias...   

2 comentários:

  1. Adorei o papo, querida Mitcheia!!! Gratidão pela delicadeza do convite!!!

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    1. O prazer foi TODO meu!!! Obrigada! =D

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