CARTA ABERTA aos autores de bullying na minha infância e adolescência

13.12.17

Precisamos falar mais sobre o bullying...

Faz muito tempo que eu quero escrever para vocês, mas me faltava coragem... Agora, com 34 anos, depois de refletir tantas vezes sobre as coisas que deixei de viver por causa de vocês, resolvi falar para tentar conscientizar, ao menos, seus filhos e outros pais/responsáveis que, de repente, não se dão conta da gravidade que um ato de bullying pode ter na vida de alguém.
.
Eu tenho estrabismo. Para quem não sabe, estrabismo é um desvio de um dos olhos, ou dos dois, da direção correta. Existem outros adjetivos pejorativos para designar essa patologia oftalmológica, mas mesmo sendo adulta, eu não consigo pronunciar. Ainda sinto um desconforto quando ouço alguém falar uma dessas palavras... Mesmo que não direcionadas a mim.
.
Aos dez anos de idade, depois de peregrinar muito com minha mãe e minha avó por Porto Alegre, lembro-me de ter realizado o que eu chamei de “o maior sonho da minha vida”. Esse grande sonho, para uma menina de 10 anos, foi a cirurgia para correção do estrabismo. Lembro-me como se fosse hoje... a festa da minha família, a minha. E o quanto algo que, talvez para vocês possa parecer tão simples, foi extraordinário para mim.
.
Mesmo após a cirurgia, o resultado não ficou 100%. Se não me engano, me explicaram que foi por eu não ter sido orientada, quando bem pequena, a fazer exercícios de correção (O Bruno Gagliasso e a Giovanna Ewbank fizeram isso com a Titi, eles são um belo exemplo de pais). E, também, porque a cirurgia foi realizada quando eu era muito nova. Hoje em dia o meu estrabismo está bem estabilizado e são raras as vezes em que ele se manifesta. Normalmente em fotografias ou devido a algum ângulo que eu olhe... Mas já me sinto bem satisfeita. Não sei se por ele ter estabilizado. Não sei se por eu ter amadurecido.
.
Antes da tal cirurgia (e por um bom período após), minha vida escolar foi bem dolorida, no que se refere a isso. Perdi as contas de quantas vezes eu chorei ao chegar da escola. Não foram poucos os deboches, os risos maldosos, as piadas, as exposições públicas de pessoas que se achavam super engraçadas em utilizar - como tema de stand ups não solicitados - o meu estrabismo para fazer graça... Uma vez eu, literalmente, implorei para um deles parar de fazer isso comigo. Ele disse que pararia. Não parou. E doeu cada momento daqueles. Doeu e impactou de uma forma tão grande no meu desenvolvimento que eu queria ter o poder de evitar que, jamais, em tempo algum, em nenhum grau, alguém passasse pelo que eu passei.
.
Lembro-me de, na quinta série, na aula de Ciências, eu ter pedido para ir ao banheiro e demorar um tempo, mais ou menos calculado em minha cabeça, para que a professora passasse de certa parte do livro que utilizávamos para estudar. O motivo foi que, na matéria que seria abordada naquele dia, um dos assuntos eram as patologias oftalmológicas. E no livro havia a foto de um menino com estrabismo. Eu entrei em pânico imediatamente quando vi. Para mim era óbvio que a professora me utilizaria como exemplo quando falasse sobre estrabismo. Pois bem, fui para o banheiro e, quando voltei, ela já havia passado daquela página. Ufa! Livrei-me de mais um constrangimento!
.
Foi só com o amadurecimento que me dei conta de que muitas das minhas escolhas foram consequências do bullying que eu sofri. Deixei de fazer teatro, por exemplo, por ter medo de me expor e servir de chacota mais uma vez. Amava cantar, mas nunca levei adiante esse sonho, pois me arrepiava a possibilidade de me apresentar e o público focar em meus olhos. E tudo que eu pensava em fazer ou ser o primeiro pensamento que vinha a minha mente era: eu não vou conseguir, não vão me aceitar, eu tenho estrabismo (isso inclui querer ser Paquita e algum menino gostar de mim). E assim a vida foi passando, minha auto-estima ficou comprometida e, até hoje, eu luto para esquecer isso que passei e ser grata por ter saúde, por enxergar e por todas as coisas boas que tenho em minha vida e em mim. E, ainda bem, eu tenho MUITAS!
.
Tá, Mitcheia, mas porque resolveste falar sobre isso logo agora? Porque se expor dessa maneira? Afinal, tanto tempo já passou, já és uma mulher... Bem, primeiro para dizer que eu perdoo todos os que praticaram bullying comigo. Eu não guardo mágoa de ninguém. Na verdade, certamente alguns deles utilizavam isso como mecanismo de defesa para que não sofressem o mesmo que eu, ou porque já sofriam o mesmo que eu. Cada um se defende com as armas que tem... Talvez alguns de vocês possam querer me perguntar por que eu não dava o troco, por que eu não devolvia na mesma moeda, né? Eu respondo a vocês: nunca tive vontade. E mais, minha mãe sempre me educou de uma maneira muito humana e amorosa. Ela sempre me ensinou a respeitar as diferenças, pois elas nos tornavam seres únicos, mas que eram parte de uma irmandade. Então, aquela menina extrovertida, alegre, mas tímida quando se tratava disso, jamais sentiu necessidade de vingança. Eu jamais odiei alguém por isso. Eu sofria, mas não odiava ninguém. 
.
O segundo motivo é o de tentar alertar os pais a estimularem o respeito em seus filhos. A ensinarem que ser diferente, de alguma maneira, não lhes dá o direito de magoar uma pessoa com atitudes tolas... Sei que, para alguns, isso tudo que eu contei pode parecer um exagero ou algo bobo. Porém, outra coisa que eu aprendi com essa experiência toda é que não podemos medir a dor dos outros a partir das nossas. E, também que, cada um tem uma forma de reagir às intempéries da vida... O que, de repente, parece uma bobagem para mim, não é para ti e vice-versa. No meu caso, o saldo foi, digamos, positivo até. Estou aprendendo a gostar, cada vez mais, de mim e sei que sou capaz de conquistar tudo o que eu quiser, tudo o que eu sonhar! Mas a mídia já nos apresentou vários casos em que o final de crianças e adolescentes, que sofreram bullying, não foi nada feliz... E é isso que precisamos evitar! E, pais, estimulem a inteligência emocional de seus filhos. Isso fará muita diferença no desenvolvimento das mais diversas áreas da vida deles!  
.
Por fim, peço desculpas pelo longo texto, mas eu precisava desengasgar tudo isso que estava dentro de mim há tanto tempo. Hoje consigo falar sobre, mas, antes, eu jamais conseguiria. No final, acho que me tornei uma mulher mais forte por causa de tudo o quer aconteceu comigo. E isso só tende a crescer, pois, quando me olho nos espelho, eu enxergo a pessoa que eu realmente sou: inteira, capaz, dona de mim!
.
Para vocês que praticaram bullying comigo: eu desejo, do fundo do meu coração, que vocês estejam e sejam sempre muito felizes! Para os que ainda praticam, peço, gentilmente, que reflitam sobre suas atitudes e que se coloquem no lugar da pessoa que está sofrendo essas ofensas - pessoal ou virtualmente -, pois nem sempre o que falta é a informação, mas a educação, a empatia e a humanidade... 

Obrigada!

“Se riem de você, não deixe que te incomodem. Seja forte. As coisas irão melhorar um dia.” - Keaton Jones. 

- Bullyng: é a prática de atos violentos, intencionais e repetidos, contra uma pessoa indefesa, que podem causar danos físicos e psicológicos às vítimas. O termo surgiu a partir do inglês bully​, palavra que significa tirano, brigão ou valentão, na tradução para o português;
- Empatia: significa a capacidade psicológica para sentir o que sentiria uma outra pessoa caso estivesse na mesma situação vivenciada por ela. Consiste em tentar compreender sentimentos e emoções, procurando experimentar de forma objetiva e racional o que sente outro indivíduo;
- Humanidade: Natureza humana; reunião das caraterísticas que são particulares à natureza humana.Benevolência; maneira bondosa de se tratar alguém: tratava todos com humanidade.Reunião de todos os seres humanos: a humanidade já possui aproximadamente 6 bilhões de pessoas;
- Inteligência emocional: é um conceito em Psicologia que descreve a capacidade de reconhecer e avaliar os seus próprios sentimentos e os dos outros, assim como a capacidade de lidar com eles. (resumidamente)

Definições retiradas de dicionários on line. 

2 comentários:

  1. Mitcheia, o que eu posso dizer desse teu texto emocionante? Que acompanhei tua trajetória de vida, e vi o quanto amadureceste como mulher, como ser humano e acima de tudo como uma pessoa do bem. Acho que na vida todos temos os nossos caminhos formados por Deus, e tudo que nos machuca acaba de uma forma nos ensinado a sermos pessoas de caráter e seres humanos únicos!! Parabéns pela coragem de colocar para fora aquilo que de alguma maneira ainda te incomodava ( ou simplesmente só colocar para fora). Tu és linda assim...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo com tudo o que disseste... Tenho certeza que, no meu caso, me tornei um ser humano melhor com esses acontecimentos. Teve o ônus e o bônus, mas posso dizer que, no final, o saldo foi positivo. Infelizmente com nem todo mundo é assim. Por isso, precisamos olhar com mais atenção e amor para nossas crianças. Dentro e fora de casa. Obrigada por teu comentário tão carinhoso. É uma honra te ter por aqui, Nathalia! Críticas e sugestões são muito bem-vindas! <3

      Excluir

Curtiu? Não curtiu?
Então comenta aqui!

Tecnologia do Blogger.